PELA FALTA DE
INFÂNCIA
16/12/2012 – P-38
Nas desilusões da juventude
Passeei nas estruturas e linhas da poesia
Arquitetando ali o mundo que sonhara um dia
Cercado de pequenos, doces amigos,
Afagos e risos, frutas, mil cores e flores
Com uma amada bela
Minha língua na dela
Roubando-lhe o doce na hora de ir
Enquanto ela me roubava de mim.
Essa era minha valiosa tela.
Talvez, nas irrealizações dos sonhos
De uma infância travessa, traquina e trepidante
De faltas, carências desejos e magias brilhantes.
Bastava olhar em volta
de algo simples e
Na imaginação fluía um artefato novo,
Cujo preço pago era uma cota farta
Em cortes e marteladas; mais,
Alguns cocorotes na volta prá casa
Pois, vigilante, atenta e imediata
- Assim como não atrasava -
A mão materna não creditava dívidas
Precavendo-se de futuras fraturas e feridas
Imediato com lágrimas essa conta eu pagava.
E assim, de cocorotes, marteladas e cortes
Dizem-me pardo, esguio ágil e torpe.
Digo-me negro, preocupado e precoce.
Distanciado das letras sons e saraus
Íntimo dos calos, dos fardos das dores
E odores, calçadas, ladeiras, estradas e degraus.
Quando por fim, me vejo diante prá valer
De um tempo duro de fazer, ter que ter,
E pagar sem ao menos receber
Um terço que se reza sem querer, sem se crer.
É preferível doar, é por opção se dar;
Senão, um mero e destemido indignar
Que não paga conta e não gera crédito.
Cá às sós: reflito; _quem comigo poderá?